terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Amor.

Hoje, depois de um longo período de aparente tranqüilidade, fiquei num mau humor federal, e gratuito. Não estava especialmente incomodado com alguma coisa. Era meio-dia, o sol apontava bem encima de minha nuca, e eu suava feito um condenado. No que eu apanho o coletivo, em direção ao Campus do Vale, cochilo sobre o molejo do ônibus. Estou com muita fome, e não, o Restaurante Universitário não abre, tenho apenas dois reais e sessenta e cinco centavos. Avisto aquele botequim horrível, a tabela com os preços esta bem acima, para minha sorte um lanche custa dois reais e cinqüenta centavos, escolho um com nome inusitado. Hilda Furacão. Frango com algumas variedades de queijo, o nome é ímpar, o gosto também. Horrível. Perco mais umas duas horas na bolsa, e retorno para casa. Com meu MP3, ouvindo a mesma seleção de músicas que está lá dentro desde outubro, denovo dentro do ônibus, começo a me indagar sobre este novo ano. “Um bom ano”, concluo rapidamente. E sim, realmente um bom ano, embora tenha apenas a soma de uma quinzena de dias.

Meu mau humor é persistente. Mas também é claro. Eu penso melhor nesse estado de espírito. Volto a refletir sobre o ano presente, ele tem sido muito compensador, depois do anterior ter sido repleto de mudanças e conclusões. Convenci-me, por exemplo, que o amor, aquele que todos falam, existe. Não é algo que queremos sentir, mas sim algo que sentimos sem querer. E embora associem, sem exceções, amor e sorrisos, e eu concorde parcialmente, ele pode ser apenas um verbo transitivo na gramática, ou em algumas vidas solitárias. Ele é muito maior, é muito mais, e por isso mesmo que a sua grandeza não está ligada a sua vasta gama de denominações, mas sim a sua irrestrita possibilidade de apropriações.

Podemos definir amor de diversas formas: O amor é uma dor! O amor é como um rio! O amor é um sentimento maravilhoso! O amor é como o beija-flor! O amor é uma desgraça. Para cada denominação uma apropriação. Eu digo isso, porque, eu mesmo, já me apropriei dele de distintas formas. Um dos meus grandes amigos, um eterno romântico, sempre me diz: “O amor é o que me move”. Eu o admiro, talvez. O fato é que não podemos nos esconder atrás das convenções, onde o senso comum nos diz que amar é depositar todas suas expectativas em outro alguém, que ele acontece uma única vez, que sem ele não podemos viver. John Lennon foi um precursor nesse tema, ele denominava isso de anulação.

Concordo com o senso comum em apenas um ponto, mas com uma interpretação diferente; não podemos viver sem o amor. Sem ele, nada mais, tem sentido. Mas, veja bem, ele só tem sentido se dermos o devido sentido para ele. No momento em que o transformarmos em algo banal e fútil, ele se esvazia de toda sua grandiosa, e bela, carga de sentidos. Jovens, e velhos também, tomam remédios para enfrentar o que eles mesmos chamam de “dor do amor”. Que sentimento tão grandioso é esse que é enfrentado com química? O abandono e a solidão, imaginam eles, são frutos da desilusão, do mesmo amor que escancarava os dentes em suas bocas e enchiam seus dias de alegrias.

Não posso concordar com tudo isso. O amor não se esconde atrás de títulos convencionados. O amor não é um namoro, um casamento, um compromisso, um contrato. Eu vos digo o que é o amor. O amor é liberdade, é companhia, mas também é solidão. O amor é solução, é solidariedade e determinação. Mas o mais importante, ele é próprio, não é emprestado. Ele se encontra com você, e apenas com você. Pra cada denominação uma apropriação. E a minha apropriação, apesar de apenas mais uma, é simples e clara. Meu amor é o amor fraterno.