Pequenas verdades da vida;
Passava na avenida, quando, abaixo do meu olhar, surge um
mendigo sentado sob o poste. Ouço então:
-Tens um trocado para o velho?
- Dou dez centavos pelo seu pensamento! – retruquei, já tirando
do meu bolso um pequeno níquel.
- Penso que você deveria me dar mais dez centavos. – responde o
maltrapilho, que apesar da sujeira mantinha certa preocupação com sua imagem,
uma longa barba e ares de alguém que já havia sido calejado pela experiência
das ruas. Imaginando que nessa inesperada relação me fosse revelado um grande
pensamento, insisti para que o vagabundo me dissesse meia dúzia de palavras. A
insistência somou sessenta centavos pelo mesmo conceito. O velho, na
permanência do seu discurso, demonstrou que a simplicidade e recorrência do seu
pensamento podiam ser rentáveis. Desisti. Naquele leilão de idéias arrematei
apenas uma esperança tola de ouvir uma grande verdade da vida, advinda da boca
de um mendigo. Mas levei-a comigo, me perguntando quantas dezenas de centavos
ainda faltariam para a grande verdade. Tenho certeza que ele sabia... Me faltou
dinheiro, me faltou paciência.

.jpg)